DRAGÕES: Da Origem ao Fim
- Maik Bárbara
- 31 de out. de 2022
- 9 min de leitura
Os dragões apareceram independentemente na arte, mitologia e folclore de muitas culturas e civilizações ao longo da história, mas poucos param e refletem sobre a formação desse mito.

Imagem: Mušḫuššu, produzido em baixo-relevo, localizado no Pergamonmuseum - Museu Pergamón, Berlin, Alemanha - Foto de Allie Caulfield
Como parte do estudo da antiguidade humana e compreensão da formação intelectual e evolução de credos e mitos, o estudo dos mais variados tópicos é necessário, sempre com o objetivo de encontrar razão nas transformações da sociedade humana. Sendo assim, aqui não será possível compreender todas as variáveis que envolvem esse tópico tão vasto, mas as linhas a seguir abordaram muito e de várias culturas pelo mundo e tempo da linha histórica que muitos não compreendem em sua totalidade.

A palavra 'dragão', entrou pela primeira vez na língua inglesa no século 13, derivado do latim vulgar 'dracōnis' e do grego 'drakōns'.
E para ter um bom começo, vamos para o mais distante que a arqueologia encontrou de registros confiáveis, ou seja, de primeira e segunda instancia no campo do estudos de provas históricas: região da mesopotâmia. Uma das primeiras representações retrata dragões como cobras gigantes nas mitologias do antigo Oriente Próximo, particularmente na arte e literatura da Mesopotâmia, onde criaturas semelhantes a dragões são descritas no Épico da Criação, o Enuma Elish, do final do segundo milênio aEC (antes da Era Comum).
Outras criaturas dracônicas, o Bašmu e o Ušumgal, também aparecem no texto do Período Acadiano, sendo o mais reconhecido o Mušmaḫḫū, que significa 'cobra avermelhada' ou 'cobra feroz’, retratado no Portão ou Porta de Ishtar na cidade de Babilônia.
A Porta de Ishtar foi a oitava entrada do lado norte da muralha da cidade da Babilônia, construída aproximadamente em 575 a.C., por ordem do rei Nabucodonosor II, que reinou prospero entre 604 e 562 aEC, no auge do Império Neobabilônico.


Na mitologia egípcia antiga, Apep ou Apophis (acima) é uma criatura gigantesca serpentina que reside no reino dos mortos e/ou abaixo do horizonte, não se sabe ao certo, pois na mitologia egípcia, assim como em várias pelo mundo, quando a palavra nativa fala sobre ‘submundo’, ela pode significar ‘mundo dos mortos’ como o conceito cristão de Inferno, mas também pode ter o sentido de ‘subsolo’, levando a crer na possibilidade de haverem práticas de religiosas atuantes em cavernas naturais, ou não, e estruturas subterrâneas. Apep foi mencionado pela primeira vez durante a 8ª Dinastia, 2181 aEC a 2160 aEC), onde narra que nasceu do cordão umbilical de Ra e era o oponente da luz, e Ma'at, travado em duelos épicos através dos tempos com Ra. Claro, que essa é uma das interpretações do mito, haja vista que para uma cronologia tão longa da existência da cultura egípcia antiga, os mitos e lendas mudam conforme o tempo do posso que os cultuavam também evoluía, sendo assim, cada mito tem sua versão conforme o momento histórico a ser referido na cosmogonia citada.

Nehebkau, a serpente primordial, se interpretada durante o Período Tardio da mitologia egípcia, é outra serpente gigante que guarda o Duat e ajudou Ra em sua batalha contra Apep. Embora originalmente considerado um espírito maligno, mais tarde ele funciona como um deus funerário associado à vida após a morte e um dos quarenta e dois assessores de Ma'at. Lembrando que não é correto, mas apenas uma figura de linguagem citar ‘vida após a morte’, enquanto se fala de Egito Antigo, pois não havia o conceito de morte como o conhecemos, haja vista que o melhor e mais adequado seria citar ‘a vida após a vida’.

O OROBORUS
O Livro Enigmático do Mundo Inferior, um antigo texto funerário egípcio encontrado na tumba de Tutancâmon retrata o Ouroboros, ou do grego clássico Οὐροβόρος – ‘aquele que consome a própria calda’ em tradução literal, um símbolo antigo que mostra uma serpente, ou o conceito de um dragão, comendo a própria cauda. O símbolo persistiu no Egito até a época romana, quando frequentemente aparecia em talismãs mágicos, e às vezes em combinação com outros emblemas místicos.

O Dragão Aži Dahāka
Na literatura zoroastrista do Irã e da Pérsia, dragões como Aži Dahāka, que significa 'Grande Serpente Avestan', eram vistos como a personificação do pecado e da ganância. Na literatura sufi persa, Jalāl al-Dīn Muḥammad Rūmī também sugere que os dragões simbolizam a alma sensual, a ganância e a luxúria, que precisa ser mortificada em uma batalha espiritual.
Dragões, grego antigo: drakōns, desempenharam um papel significativo na mitologia grega ancestral, muitas vezes aparecendo com um cuspe venenoso, embora o hálito de fogo seja atestado em vários mitos. Algumas representações também mostram a drakaina, uma serpente feminina com várias características de uma mulher humana.
Muitos heróis gregos lutaram ou encontraram criaturas dracônicas. Héracles, conhecido no ocidente como Hercules, matou a Hidra de Lerna, Jasão drogou um dragão insone guardando o Velocino de Ouro que era sua missão e busca, Zeus lutou contra o monstro Tifão e Cadmo travou disputa contra o dragão de Ares.
Os romanos tinham pouco interesse aparente em desenvolver novas tradições próprias de dragões, do latim vulgar: dracōnis, principalmente adaptando a mitologia dos gregos antigos para atender às suas necessidades e demandas estratégicas de expansão e domínio hegemônico social e territorial. Durante o século 2 dEC (depois da Era Comum), após as guerras dácias, os militares romanos usaram o draco como seu padrão militar da corte, pois a águia, aquila, era a da legião.
Na Ásia, principalmente na China, a aderência na mitologia dos dragões é altamente perceptível. Os dragões, do mandarim tradicional e antigo: 龍 (lóng), eram associados à boa sorte e simbolizavam poderes potentes e auspiciosos. Os dragões costumavam acompanhar deuses e semideuses como suas montarias ou companheiros pessoais, enquanto os imperadores chineses usavam um símbolo de dragão para projetar sua força imperial. É válido lembrar que para a cultura asiática haviam inúmeros tipos de dragões, e cada um deles tinha sua terminação nominal como lóng, tal como vemos retratado no manga Dragon Ball, o dragão 神龍, Shenglong, ou o mesmo em japonês: 神竜 Shinryū, o literalmente Espírito Dragão, que controla o vento, a chuva e os relâmpagos, e trovões. Assim como há vários outros que simbolizam o que a cultura precisava em sua cosmogonia, por exemplo o 睚眦 ou 睚眥, yázī, o tipo de dragão que gosta de matar, e geralmente é encontrado entalhado em espadas e facas.
As primeiras representações zoomórficas dracônicas datam da cultura Xinglongwa entre 6200-5400 aEC, enquanto a cultura Hongshan pode ter introduzido o caractere chinês para 'dragão' entre 4700 e 2900 aEC.

A imagem tradicional do dragão chinês surgiu durante as dinastias Shang, 1766 a 1122 aEC, e Zhou de 1046 aC a 256 aEC, evoluindo para o Yinglong, um dragão alado que o estudioso Chen Zheng propõe ser a origem do 'imagem do dragão real'. As criações artísticas evoluiriam Yinglong para ter padrões de chamas ou nuvens em vez de asas, eventualmente substituindo Yinglong pela imagem de um dragão amarelo sem asas nas formas de arte chinesas.
Um diagrama cosmológico do Deus Dragão apresenta o conceito de dragões na cultura chinesa e o cosmológico Sihai Longwang 'Rei Dragão dos Quatro Mares'. Cada Rei Dragão está associado a uma cor e um corpo de água, com o Dragão Azul ou Dragão Azul-Verde representando o leste e a essência da primavera, o Dragão Vermelho o sul e a essência do verão, o Dragão Negro o norte e o essência do inverno, o Dragão Branco a oeste e a essência do outono, e depois há o dragão amarelo, que é a encarnação zoomórfica do Imperador Amarelo.
É mais provável que o dragão chinês tenha influenciado muitos países asiáticos, com os dragões da Coréia sendo representados com barbas mais longas e às vezes mostrados carregando um orbe gigante conhecido como yeouiju. A mitologia coreana descreve dragões originários de serpentes como proto-dracos chamados imugis, que aspiravam a se tornar um verdadeiro dragão se pegassem um Yeouiju que havia caído do céu.
Já no Japão, as lendas de dragões estão fortemente entrelaçadas com dragões chineses, mesmo usando palavras chinesas para nomes de dragões. Acredita-se que monges budistas de toda a Ásia transmitiram lendas de dragões e cobras da mitologia budista e hindu para o Japão, embora existam alguns exemplos de dragões indígenas descritos em textos antigos, como Kojiki e Nihongi.
Na mitologia filipina, Bakunawa, que significa "cobra dobrada" é um dragão semelhante a uma serpente que se acredita ser a causa de eclipses, terremotos, chuvas e ventos. Bakunawa também é conhecido como Naga, devido à sincretização com a divindade serpente hindu-budista, Nāga. Também foi sincretizado com o par hindu-budista navagraha, Rahu e Ketu, divindades responsáveis pelos eclipses do sol e da lua, respectivamente.
Muitas serpentes filipinas foram associadas a engolir a lua, com lendas de Láwû, uma serpente da mitologia Kapampangan, Olimaw, um dragão-serpente fantasma alado da mitologia Ilokano e Sawa, um monstro serpente das mitologias Tagalog e Ati
A Índia também tem suas próprias lendas de dragões. O Rigveda, uma antiga coleção indiana de hinos sânscritos védicos, descreve como Indra, o deus védico das tempestades, lutava contra uma serpente gigante chamada Vrtra.
Os povos das Américas também tiveram sua vez no hall da criação, e têm suas próprias lendas dracônicas completamente independentes do resto do mundo. Os Yucatec Maya adoravam Kulkulkan, uma divindade serpente mesoamericana cujas origens vêm do Período Clássico, e mais tarde foi adotada pelos pós-clássicos K'iche' Maya como Q'uq'umatz.
Os astecas adoravam o famoso na atualidade: Quetzalcoatl, cujo nome vem da língua náuatle e significa 'serpente preciosa' ou 'serpente de penas de quetzal', mas não a tão famosa interpretação linguística que deu o resultado de ‘serpente alada’ tão divulgada erroneamente por diversos canais de comunicação da atualidade. Xiuhcoatl, traduzido como 'serpente turquesa' no náuatle clássico, era outra divindade serpente, deus do fogo asteca interpretado como a personificação da estação seca e sendo a arma do sol. Pense que os maias viviam longe de grandes rios e dependiam muito das chuvas em seus territórios para armazenarem água e passarem pelos meses de estiagem, e assim entenderá a potência de um deus dragão figurando como o possuidor de poderes que pode acabar com o povo todo.
Na mitologia das civilizações andinas da América do Sul, o Amaroca, Amaruca ou Katari é uma serpente ou dragão mítico, mais associado aos impérios Tiwanaku e Inca. Na mitologia inca, Amaruca é uma enorme serpente de duas cabeças que vive no subsolo no fundo de lagos e rios.
Vários dragões também aparecem nas culturas dos povos indígenas americanos. Na mitologia do povo Illini, murais pintados em penhascos com vista para o rio Mississippi retratam o Pássaro Piasa, uma figura dracônica que pode ter sido uma iconografia mais antiga da grande cidade cultural do Mississippi de Cahokia.
Uma das formas mais comuns de dragões nativos americanos, uma figura recorrente entre muitas tribos indígenas das Florestas do Sudeste norte-americano e outros grupos tribais é a Serpente Chifruda, associada à água, chuva, relâmpagos e trovões.
A imagem moderna de um dragão desenvolveu-se na Europa durante a Idade Média, depois da queda do império Romano em 476 dEC e terminou em 1453 dEC marcado pela conquista de Constantinopla. E através da combinação dos dragões semelhantes a serpentes da literatura greco-romana clássica, referências a dragões do Oriente Próximo preservados na Bíblia e tradições folclóricas europeias.
Os séculos 11 e 13 viram o auge do interesse europeu pelos dragões como criaturas vivas. A imagem reconhecível mais antiga de um dragão europeu totalmente moderno aparece em uma ilustração pintada à mão do manuscrito medieval MS Harley 3244, produzido por volta de 1260 dC.

Imagem da representação draconiana, Dragon_Harley
Os dragões europeus são geralmente descritos como monstros gananciosos e gulosos, com apetites vorazes vivendo em rios ou tendo um covil ou caverna subterrânea. Eles são frequentemente identificados com o demônio em pessoa, Lúcifer, devido às referências a Satanás como um interpretativo 'dragão' no Livro do Apocalipse.
Dragões e motivos de dragões são apresentados em muitas obras da literatura moderna, particularmente no gênero de fantasia. Um dos dragões modernos mais icônicos é Smaug, do romance clássico de JRR Tolkien, O Hobbit, com trabalhos proeminentes retratando dragões em Dragonriders of Pern, de Anne McCaffrey, a série Harry Potter de romances infantis de JK Rowling, Earthsea Cycle de Ursula K. Le Guin e da série literária de RR Martin As Crônicas de Gelo e Fogo.
Estudiosos disputam de onde a ideia de um dragão se origina e uma grande variedade de hipóteses foram propostas. Como os primeiros dragões atestados se assemelham a cobras ou têm atributos semelhantes as serpentes, foi sugerido que os dragões são a criação de nosso medo inato de cobras.
Adrienne Mayor, historiadora da ciência antiga e folclorista clássica, sugere que as imagens de dragões são baseadas no conhecimento popular ou exageros de répteis vivos hoje. Ela também argumenta que os dragões podem ter sido inspirados por antigas descobertas de fósseis pertencentes a dinossauros e outros animais pré-históricos.
Isso é evidenciado na Catedral de Wawel, Craóvia – Polônia, onde vários ossos supostamente pertencentes ao Dragão de Wawel estão pendurados do lado de fora da catedral, mas os fósseis na verdade pertencem a um mamífero do Pleistoceno. Os chineses antigos também se referiam a ossos de dinossauros desenterrados como ossos de dragão e os documentavam como tal. Por exemplo, Chang Qu em 300 dEC documenta a descoberta de “ossos de dragão” em Sìchuān, uma província a sudoeste da China.
Então, da próxima vez que um pessoa te disser que dragões foram inventados na idade média por europeus descobridores de fósseis de dinossauros mal interpretados, ou que nossos antepassados viram répteis gigantes, tal como o dragão de komodo, e se assustaram inventando lendas... Aí sim, você já pode indicar essa matéria para essa pessoa desenformada ler, e depois da leitura, sentar para um bom babo sobre a formação dos mitos dos dragões através dos tempos e povos do nosso incógnito passado humano. E também tratar a São Jorge, e como fica ele nessa história de mitologia draconiana?